
Os meios de comunicaç?o social em permanente busca de audi?ncias ou tiragens que lhes assegurem publicidade acrescida criaram engenhosamente a moda dos escândalos sucessivos, trazendo ? ribalta um novo escândalo quando o anterior principia a esfriar.
E é assim que situaç?es como a pedofilia na Casa Pia, que datam de há décadas (séculos?), com o conhecimento complacente de sucessivos governos, das administraç?es da instituiç?o, das polícias, da justiça, de antigos e novos alunos, se tornou subitamente um escândalo de grandes proporç?es. Como a morosidade das investigaç?es colocou a quest?o em lume brando, convinha, enquanto n?o chegava a guerra ao Iraque para monopolizar os noticiários, um novo escândalo para fixar leitores e telespectadores. E surgiu o escândalo dos nitrofuranos na avicultura.
Também aqui práticas quotidianas (com nitrofuranos e/ou outras substâncias nocivas ) vigentes há décadas, conhecidas de governantes, autoridades sanitárias, produtores de raç?es, avicultores, distribuidores e de sectores do público consumidor se tornaram subitamente um escândalo, pelo simples facto de serem divulgadas com grande ?nfase por alguns órg?os da comunicaç?o social.
E n?o deixa de ser curioso que a preocupaç?o incida quase exclusivamente sobre o sector avícola, apenas por serem mais discretas as refer?ncias da comunicaç?o social ? ocorr?ncia do mesmo fenómeno na cunicultura ou na suinocultura. Para mais sabendo-se que situaç?es análogas ou afins t?m lugar na criaç?o de ovinos, bovinos e até na piscicultura.
Na realidade a produç?o de proteína animal em larga escala, a preços competitivos e com bons lucros, está inelutavelmente ligada a este tipo de situaç?es. É ela mesma um escândalo, sob vários aspectos:
a) tratamento infligido aos animais
b) saúde pública
c) dietético
d) fome no mundo
e) preservaç?o da natureza
a) As condiç?es a que s?o submetidos os animais nestas criaç?es intensivas, com enorme concentraç?o de animais em espaços exíguos e métodos artificiais de crescimento e engorda em tempo record. A superpopulaç?o cria o risco de epidemias, donde o uso em larga escala de antibióticos e afins, tanto mais que ocorrem frequentemente feridas nas patas (por pavimentos inadequados ou acumulaç?o de excrementos) e noutras regi?es do corpo por comportamentos agressivos resultantes da superlotaç?o. É também frequente a administraç?o de hormonas para obter um crescimento mais rápido. As condiç?es artificiais de vida – aus?ncia de progenitores, superpopulaç?o, exiguidade de espaço, luz artificial, monotonia alimentar, piso e higiene deficientes – conduzem a situaç?es de stress psíquico e grande sofrimento por parte dos animais. A introduç?o de proteínas animais (farinhas de ossos, vísceras, etc.) na alimentaç?o, mesmo de espécies exclusivamente herbívoras, para acelerar o crescimento ou favorecer a produç?o de ovos ou leite já revelou os seus malefícios – caso da BSE – e nada se sabe ainda do que poderá resultar da introduç?o de alimentos transgénicos. As condiç?es de transporte e abate s?o, como também é do conhecimento geral, deploráveis. Valores morais, um mínimo de sensibilidade e de preocupaç?o com o bem estar e o sofrimento dos animais, primam pela aus?ncia na imensa maioria destas exploraç?es.
b) Saúde pública. A presença de antibióticos, fungistáticos, hormonas e outros produtos (nomeadamente cancerígenos, como os nitrofuranos) na carne destes animais t?m graves repercuss?es na saúde humana. A ingest?o quotidiana de antibióticos na alimentaç?o provocam reacç?es alérgicas de gravidade variável e criam resist?ncias bacterianas que tornam mais difícil o tratamento de eventuais infecç?es humanas. Do mesmo modo a ingest?o de hormonas tem efeitos nocivos. E, facto da maior relevância, como a ingest?o daqueles fármacos é feita sem conhecimento do doente nem do médico torna-se muito difícil identificar a origem do problema. No caso das substâncias cancerígenas é geralmente necessária uma ingest?o prolongada e os efeitos surgem tardiamente, ao cabo de anos ou mesmo décadas, pelo que se torna difícil determinar a causa do tumor.
Por esta dupla preocupaç?o com o bem estar animal e a saúde humana a agricultura biológica proíbe a criaç?o de animais em regime intensivo, seja para produç?o de carne, leite ou ovos e igualmente interdita o uso de antibióticos (salvo para tratamento de infecç?es declaradas), de hormonas e de raç?es industriais de natureza duvidosa.
c) É indispensável chamar a atenç?o para o erro dietético (e económico) que é o excessivo consumo de proteína animal no mundo dito desenvolvido, que está na origem dos problemas que vimos tratando. O ser humano necessita de 70g de proteína para a renovaç?o dos seus tecidos. É um erro utilizar proteína como fornecedor de energia. Para este efeito devem ser utilizados os açucares (sobretudo) e as gorduras. As proteínas s?o menos eficazes e a sua utilizaç?o para este fim é biológica e economicamente um desperdício. Grande parte das proteínas podem ser obtidas facilmente de alimentos vegetais – legumes, sobretudo – mas alguns aminoácidos essenciais escasseiam no reino vegetal e s?o facilmente obtidos no leite e derivados, nos ovos e na carne. Mas basta uma pequena quantidade para complementar uma dieta essencialmente vegetariana. O leite é um alimento completo e os ovos, como o leite, cont?m proteínas de alto valor biológico, pelo que a ingest?o de qualquer deles torna desnecessário o consumo de carne ou peixe.
d) O consumo excessivo de proteína animal pelos países mais ricos (e pelas classes mais abastadas dos países pobres) é uma importantes causas da fome no Mundo. A produç?o de carne nesses países (em boa medida para consumo nos países ricos) implica a transfer?ncia de muitos terrenos agrícolas para a alimentaç?o animal (forragens, cereais) reduzindo a área destinada ? alimentaç?o humana. Mas além da reduç?o da área agrícola para alimentaç?o humana tem sido necessário recorrer ? desflorestaç?o para criar pastagens. A perda da floresta significa para as populaç?es locais pobres uma dificuldade acrescida para obter lenha para cozinhar e madeira para a construç?o de habitaç?es.
e) A desflorestaç?o, a produç?o vegetal para alimentaç?o animal em larga escala (com recurso a adubos industriais, pesticidas, etc.) modifica as condiç?es ecológicas e reduz drasticamente a flora e a fauna selvagens. Os adubos, pesticidas e excrementos poluem também as nascentes e cursos de água. A produç?o de proteína animal em larga escala é, portanto, nociva para o meio ambiente.
A soluç?o do problema n?o se encontra pois numa fiscalizaç?o mais exigente das exploraç?es avícolas (e outras) que apenas poderá, na melhor das hipóteses, reduzir a administraç?o de alguns produtos mais perniciosos mas nunca conseguirá, enquanto persistir a produç?o intensiva, uma alteraç?o qualitativa importante. ? necessário eliminar a produç?o intensiva. Mas para eliminar a produç?o intensiva é indispensável reduzir o consumo de proteína animal. Isso exige a reconvers?o da nossa dieta, tornando-a mais equilibrada, mais saudável e mais económica. É uma tarefa que está ao alcance de cada um de nós, que só de nós depende, e que, para mais fácil adaptaç?o, se pode fazer de modo progressivo. Mudando os nossos hábitos alimentares e optando por produtos da agricultura biológica conseguiremos aquilo que a fiscalizaç?o estatal nunca conseguirá: a reduç?o ou desaparecimento da produç?o animal em regime intensivo. Uma luta que atinge simultaneamente vários e importantes objectivos: autodisciplina, saúde, bem estar animal, luta contra a fome e preservaç?o do meio ambiente. As verdadeiras revoluç?es est?o geralmente ao nosso alcance e os que se prop?em revoluç?es impossíveis ou em futuros remotos est?o muitas vezes apenas a fugir ?s exig?ncias e esforços indispensáveis das revoluç?es efectivas.Fonte: Jornal A Batalha