
Trata-se da traduç?o para portugu?s da traduç?o castelhana de Julio Rubio
para Libre Pensamiento (n.? 50, Inverno 2006) do artigo original publicado
na revista Communications of the Association for the Computing Machinery
(vol. 48, n.? 10, Out.? 2005), órg?o daquela reputada associaç?o
internacional. A vis?o crítica do autor tem, para além do seu interesse
essencial, certa oportunidade política neste momento em que assistimos
quase diariamente a insistentes e algo primários apelos ?s novas
tecnologias como panaceia para todos os problemas, nomeadamente a nível da
educaç?o. Conforme regista Julio Rubio em nota introdutória “parece-me
significativo que alguns profissionais de informática (pelo menos nos
EUA…) tenham uma vis?o muito menos ingénua, mais crítica e avisada dos
seus objectos de estudo e trabalho que outros profissionais dedicados ?
crítica cultural e social (…) No mesmo número da revista há artigos
dedicados ? organizaç?o e difus?o de boicotes por meios electrónicos,
influ?ncia no rendimento académico do aumento de investimento em
computadores nas escolas (influ?ncia claramente negativa como se demonstra
com dados no artigo) (s.n.) (…) Sirva este artigo simplesmente como
anúncio para os n?o iniciados: nem toda a inovaç?o informática é positiva
(neutral) e alguns profissionais da informática est?o conscientes disso.”
O cepticismo quanto ao carácter pró-democrático da Internet n?o se baseia
no desigual acesso ? rede. Tem uma base mais sistémica. Ao confrontar-se
com a Internet os observadores cometem com frequ?ncia o chamado erro de
composiç?o. Observam o comportamento “micro” e saltam para uma conclus?o
“macro”. Pensam que se algo é vantajoso para um indivíduo ou grupo, o
efeito será similar para a sociedade em geral, quando toda a gente o usar.
Uma analogia exemplificativa: é mais rápido para um indivíduo ir no seu
automóvel para o trabalho, de manh?; porém, se toda a gente fizesse o
mesmo, todos chegariam tarde ao trabalho, e o ambiente ficaria mais
poluído devido ? motorizaç?o maciça.
Um segundo erro é o da infer?ncia. Só porque a Internet é boa para a
democracia em países como a Coreia do Norte, Ir?o ou Líbia, n?o se pode
deduzir que o seja para a Alemanha, Dinamarca ou EUA. Porque se ter 10
canais de televis?o é melhor do que ter só 3 n?o se pode deduzir que ter
3000 seja ainda melhor.
Consideremos as raz?es principais pelas quais se afirma que a Internet
fortalece a democracia.
“A Internet facilita a acç?o participativa na política”
É certo que torna mais fáceis e baratas algumas actividades políticas.
Porém fá-lo para toda a gente. E se toda a gente fala, quem escuta? Assim
a efectividade dos utilizadores iniciais será rapidamente igualada pelos
seus rivais e levará simplesmente a uma cara e mutuamente paralisante
“corrida aos armamentos”, para investir em técnicas de personalizaç?o e em
tecnologias de marketing adaptadas aos novos meios de comunicaç?o.
Os primeiros utilizadores da Internet experimentaram uma melhoria da sua
efectividade, e extrapolaram-na messianicamente para a sociedade no seu
conjunto. Essa melhoria foi anunciada com fanfarras como um fortalecimento
do indivíduo frente ao Grande Governo e ?s Grandes Multinacionais, mas
tudo ficou por um fortalecimento inicial de indivíduos e grupos com
perícia no mundo dos computadores e das redes (que t?m habitualmente
investimentos e nível educativo acima da média) e um relativo
debilitamento relativamente ?s pessoas sem tais recursos.
Acima de tudo, o baixo custo é certo principalmente para a Internet de
banda estreita, baseada sobretudo na comunicaç?o de texto. Porém a banda
larga permitirá primeiro e exigirá pouco depois, fantasiosas mensagens de
vídeo e multimedia. A política “em rede” terá que ser personalizada, para
ser mais efectiva. O que requer grandes bases de dados. Nada disto é
barato.
“A Internet eleva o nível do diálogo político”
Só porque a quantidade de informaç?o aumenta n?o se pode deduzir que
melhore a sua qualidade média. Antes pelo contrário: como a Internet
conduz a mais ruído informativo, é necessário gritar mais alto em cada
mensagem. Portanto, muita da informaç?o política estará distorcida, será
ruidosa e simplista.
Uma das características da Internet é a “desintermediaç?o”. Em política, a
“desintermediaç?o” da informaç?o é uma arma de dois gumes. É certo que a
censura é indesejável, porém também o é a desinformaç?o. Joeirar e marcar
a informaç?o ajuda a audi?ncia. Quando a informaç?o chega sem filtros
poderá criar meios de comunicaç?o colectivos, porém também poderá dar
lugar a maledic?ncias e emboscadas políticas de última hora.
“Torna possível o acesso directo aos representantes políticos”
Sim, cada um de nós pode enviar correios electrónicos aos representantes
políticos, e talvez possa até obter uma resposta automática,
proporcionando uma ilus?o de acessibilidade. Porém a atenç?o desses
representantes é um recurso limitado que continuará a escassear. Só umas
poucas mensagens ser?o atendidas. Uma maior torrente de mensagens tornará
a acç?o dos intermediários, que podem facilitar o acesso aos poderosos,
mais importante que nunca. Para n?o mencionar o facto de se poderem
produzir ostensivas manipulaç?es em massa da opini?o pública.
Ironicamente, o meio de comunicaç?o mais efectivo com um representante
eleito – se excluirmos o cheque para financiar a sua campanha – continua a
ser a carta manuscrita.
“A Internet proporciona mais informaç?o, o que é bom para a democracia”
O acesso ? informaç?o é vantajoso, e é a raz?o pela qual socava o
totalitarismo. Porém socava também muitas outras coisas, incluindo os
partidos políticos e a estabilidade. Também cria novas ferramentas para a
vigilância electrónica do Grande Irm?o. O valor da informaç?o para a
promoç?o da paz e da harmonia é sobrestimado. As situaç?es de guerra civil
n?o est?o caracterizadas tipicamente por falta de informaç?o. A democracia
requer estabilidade e a estabilidade requer um pouco de inércia. As
democracias mais estáveis caracterizam-se por certa resist?ncia ? mudança.
Podem citar-se como exemplos a Gr?-Bretanha e a Suíça.
É fácil interpretar romanticamente o passado da democracia, com os seus
debates atenienses ante uma cidadania comprometida, e acreditar no seu
regresso graças aos meios electrónicos. Uma rápida mirada ao retrovisor –
pensando na rádio e na televis?o – p?e as coisas no seu sítio. Os ent?o
novos meios também foram saudados como arautos dum novo e melhorado
diálogo político. Porém a realidade foi a produç?o de cacofonia, a
fragmentaç?o, o aumento de custos e o declínio do valor da informaç?o
“dura”…
A Internet pode certamente mobilizar grupos difíceis de alcançar por
outros meios, e ajudar pessoas e grupos a exprimirem-se por si mesmos.
Libertou muita energia e criatividade. Amplos segmentos da sociedade est?o
desencantados com um sistema político que muitas vezes n?o responde, que
está frequentemente influenciado pelos financiadores das campanhas, e que
amiúde é lento; muitos encaram a Internet como a bola mágica que mudará
tudo isso. Outros aferram-se ? imagem da Internet nos seus princípios –
aberta e livre – que criou uma nova forma de comunidade. Todos eles foram
defraudados.
A Internet n?o cria uma democracia “Jeffersoniana”. N?o é Atenas, nem o
cant?o suíço de Appenzell, nem um sítio para o debate ? Lincoln-Douglas.
Significa, em todo ocaso, menos democracia do que nesses lugares, cujo
nível tecnológico era muito menor. Porém, t?o pouco existiu realmente em
algum desses lugares, excepto como um ideal, uma meta ou uma inspiraç?o. E
neste sentido, as expectativas postas na Internet s?o um novo elo numa
cadeia de esperança. Quiçá de modo ingénuo, porém certamente enobrecedor.
Por Eli M. Noam